Por Thomas Gautier, CEO do Freto*
Nas Estradas, os caminhões em geral são vistos como veículos que tornam o trânsito
mais devagar. Em uma análise macro, que ultrapassa a beira da rodovia, acontece o
contrário: eles são responsáveis por dar velocidade ao país, movimentar a economia.
Sem interromper o fluxo nem mesmo em uma pandemia, são eles que permitem a
empresas dos mais diversos setores pisar o acelerador. Diante desse cenário,
precisamos pensar se temos reconhecido os Caminhoneiros de acordo com a
importância de sua atividade para o nosso dia a dia.
Enquanto discutimos modelo híbrido, a Estrada, que é o escritório do Caminhoneiro, já
se confunde com a casa dos motoristas há muito tempo. Espaço onde fazem refeições,
acomodam-se para dormir e encontram até lugar para banho. Hoje, as grandes
corporações trazem à pauta novas formas de colaboração, novas maneiras de criar
cultura, construir relacionamento com o cliente e os times, compartilhar
conhecimento. Na logística, o próximo passo é levar esse debate às rodovias.
A Estrada, se fosse uma marca, uma instituição, seria a maior do planeta. Milhares de
quilômetros por onde circulam mercadorias. Local onde os indivíduos interagem,
empreendem e fazem negócios. Nessa nova fase, em que temos refletido mais sobre
propósitos, metas e novos meios de construir o mundo, será que as empresas
brasileiras – em menor ou maior grau dependentes da logística – estão obtendo os
melhores benefícios que a Estrada lhes oferece?
Sinto responder que não, ainda temos muito a percorrer. Se nos acostumamos a dizer
que quem faz uma empresa são as pessoas, o mesmo se aplica às pistas de Norte a Sul
do país. Um dos principais protagonistas da Estrada, essa “empresa” de asfalto ou
terra cercada de paisagem, é o Caminhoneiro. Os movimentos da economia e do setor
mundial de logística nos últimos anos têm confirmado cada vez mais o valor de um
motorista motivado ao volante, empenhado no desenvolvimento de sua carreira e do
seu serviço.
Toda corporação que usa a Estrada para fazer negócios precisa entender que o debate
vai muito além do preço do diesel, aposentadoria especial ou do recém-criado MEI
Caminhoneiro. Ele tem a ver com qualidade de vida dentro da Estrada e fora dela.
Quando a expansão desse debate ocorrer, poderemos ter um número maior de
Caminhoneiros satisfeitos, mão de obra ainda mais capacitada e maior
proximidade/diálogo entre motoristas, empresas contratantes de frete e o próprio
governo.
As companhias falam muito em formar e reter talentos, equilibrar vida pessoal e
profissional, felicidade no ambiente de trabalho para impulsionar performance,
identificar um propósito, cuidar da saúde física e mental. Por isso, nunca foi tão
necessário pensar a Estrada sob a ótica desses conceitos e, para usar uma palavra
comum do ambiente corporativo, “humanizar” o relacionamento com os
Caminhoneiros, incluindo o autônomo – nem sempre beneficiado por um programa
corporativo de gestão de pessoas. E como proporcionar isso?
Em um mundo de inteligência de dados e plataformas tecnológicas, falar em
digitalização na logística é fácil. Nosso maior desafio está em olhar o Caminhoneiro e
pensar em projetos de desenvolvimento profissional, saúde, educação, evolução
financeira, empreendedorismo. O olhar 360 graus de uma verdadeira Humanologística,
a partir de iniciativas que o permitam passar mais tempo com a família, fazer o que
gosta, ganhar tranquilidade, sonhar e viver ainda mais feliz com o seu ofício. Medidas
que levem ao bem-estar, à descompressão e redução do estresse.
Na Estrada da performance do frete rodoviário, as empresas também precisam ter
estratégias eficientes para identificar, reter e incentivar seus maiores talentos. E isso
passa fundamentalmente pela boleia do caminhão.
*Thomas Gautier tem duas décadas de experiência em grupos internacionais e assumiu como
CEO do Freto em 2021. O executivo iniciou sua carreira na França e tornou-se CFO da Repom,
no Brasil, em 2013. Em 2017, virou diretor-geral da Repom e, em 2018, passou a ser Head de
Logística do Grupo Edenred, quando, em sua gestão, o Freto nasceu. Desde o começo do ano,
o Freto assumiu a gestão do Clube da Estrada, maior plataforma do país de apoio a
Caminhoneiros.




