Por Luiz Fernando Emediato, Fernanda Emediato e Rodrigo Emediato
Numa atitude inusitada, a Feira do Livro de Frankfurt – a maior feira anual de livros do mundo – concordou com o cancelamento da cerimônia de premiação da escritora palestina Adania Shibli, por seu livro “Detalhe menor”, publicado no Brasil pela editora Todavia, para, neste momento de conflito na Faixa de Gaza, “tornar as vozes judaicas e israelenses especialmente visíveis na feira do livro” e “ficar com total solidariedade ao lado do Israel”.
O pedido de cancelamento foi feito formalmente pela Associação Literária Litprom, financiada pela Feira e pelo governo alemão. Foi cancelado também o debate sobre o livro, com a presença da autora e de seu tradutor alemão.
Neste momento dramático no Oriente Médio, em que um grupo político extremista atacou Israel, espalhando o terror e matando injustificadamente civis inocentes, de diversas nacionalidades, e em que Israel respondeu da mesma forma, também atingindo e matando inclusive crianças, é inaceitável que uma feira de editores e autores tome um lado na questão, proibindo o outro.
Ambas as atitudes – do grupo político Hamas e do atual governo de Israel – provocaram uma crise humanitária sem precedentes na região. O melhor a ser feito seria discutir a questão na Feira de Frankfurt, dando espaço a todos os lados envolvidos – sejam palestinos ou israelenses. Israelenses e palestinos precisam conviver em paz, cada qual com sua terra, seu estado e autonomia.
Defendemos a liberdade de expressão, o diálogo e a paz, no momento difíceis de se encontrar na área de conflito. Mas, numa feira de livros e ideias? Apoiamos o manifesto de um grupo de editores independentes da Aliança Internacional de Editores que já condenou o cancelamento. “Uma feira de livros”, diz o manifesto, “deve ser um fórum livre e imparcial para abrir diálogos e debates sem violência”.
Por isso manifestamos aqui nosso profundo pesar e descontentamento diante do unilateral cancelamento da cerimônia de premiação que homenagearia Adania Shibli na Feira de Livros de Frankfurt.
Adania Shibli é uma escritora notável, cujo romance “Detalhe Menor”, lançado no Brasil em 2021 pela editora Todavia, merecidamente receberia o Prêmio de Literatura de 2023. Sua contribuição para a literatura contemporânea é inegável, e sua voz é uma parte essencial do diálogo literário global. Cancelar sua homenagem é um ato que vai contra os princípios fundamentais da liberdade de expressão e da diversidade cultural que a literatura representa.
Acreditamos que a literatura tem o poder de unir culturas, abrir diálogos e promover a compreensão mútua. Negar a oportunidade de reconhecer o trabalho de Adania Shibli é um passo na direção oposta, que prejudica a rica tapeçaria da literatura mundial.
Infelizmente a Feira do Livro de Frankfurt, que abriu ontem, não reconsiderou sua decisão. Apesar disso, apelamos para que todas as partes envolvidas na promoção da literatura, presentes em Frankfurt, se comprometam com a promoção da diversidade literária e com a proteção da liberdade de expressão de todos os autores, independentemente de sua origem ou perspectiva.
Acreditamos que a literatura floresce quando todas as vozes – não importa se palestinas, judaicas, o que for – têm a oportunidade de serem ouvidas. Vamos continuar a apoiar e celebrar a rica diversidade de vozes literárias em todo o mundo, incluindo a voz única e valiosa de Adania Shibli.
No que diz respeito a “Detalhe Menor”, consideramos que merece destaque especial. Aborda o sequestro, estupro e assassinato de uma garota beduína por soldados israelenses em 1949. O livro é dividido em duas partes, na primeira das quais Shibli narra os pormenores da captura e morte da jovem. Na segunda, ela descreve os esforços de uma mulher palestina que, décadas depois, decide viajar em busca de mais informações sobre aquele antigo e cruel episódio. Trata-se de um trabalho literário profundo que lança luz sobre eventos históricos sensíveis…
Reforçamos nossa posição em defesa da diversidade literária e da liberdade de expressão, especialmente quando se trata de obras que exploram questões históricas e culturais complexas. A literatura tem o poder de lançar luz sobre temas difíceis e promover um entendimento mais profundo entre culturas e perspectivas diferentes.
Quanto à questão das guerras, acreditamos que a cultura e a literatura desempenham um papel essencial ao evidenciar as devastadoras e injustas repercussões delas, especialmente sobre as comunidades mais vulneráveis. Elas têm o poder de cultivar a empatia, promover a compreensão e aumentar a conscientização, contribuindo assim para a construção de um mundo mais pacífico e equitativo.
Vamos escrever, editar e publicar mais livros e evitar guerras, pois as palavras têm o poder de unir, enquanto a violência apenas divide.
GERAÇÃO EDITORIAL
Rua João Pereira, 81 – Lapa – 05074-070 – São Paulo – SP – +55 11 3256-4444





