Crise em Ormuz expõe vulnerabilidade do Brasil no diesel

Especialista avalia que capacidade
brasileira de substituir gasolina importada por etanol contrasta com a maior
dependência externa do combustível que movimenta o transporte, a produção
agrícola e a indústria.

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As novas ameaças ao tráfego de petróleo e derivados pelo Estreito de Ormuz
evidenciam uma diferença importante na capacidade de o Brasil enfrentar crises
internacionais de abastecimento. Enquanto o país dispõe de uma estrutura
consolidada para reduzir a necessidade de gasolina importada por meio do
etanol, sua economia permanece mais vulnerável às oscilações do mercado externo
de diesel.

  

A análise é do especialista em energia, transição energética e mudanças
climáticas Eric Fernando Boeck Daza, que avalia como o sistema de
biocombustíveis construído pelo Brasil ao longo das últimas cinco décadas
transformou a produção agrícola em um instrumento de segurança energética.

  

A elevação de 30% para 32% da participação do etanol na gasolina reduziria, se
mantida por um ano, em cerca de 900 milhões de litros a necessidade de
importação de gasolina, segundo dados do Ministério de Minas e Energia. O
volume é equivalente ao consumo anual de uma grande capital brasileira.

  

Para Eric, essa capacidade de resposta resulta de uma estrutura que reúne o
Proálcool, usinas, produção de etanol de cana-de-açúcar e de milho, mistura
obrigatória e uma ampla frota de veículos flex. “O Brasil levou cinquenta
anos para construir um sistema que permite substituir rapidamente parte da
gasolina importada quando o mercado internacional enfrenta uma crise. Ormuz
mostra a força dessa proteção, mas também revela que ela ainda é muito menor no
diesel, justamente o combustível que move o frete, a colheita e a
indústria”, afirma.

  

Apesar de produzir cerca de 4,3 milhões de barris de petróleo por dia, conforme dados
da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o Brasil
ainda importa parte dos derivados necessários ao consumo interno. As
características do petróleo extraído, a capacidade das refinarias e a estrutura
logística fazem com que o país exporte óleo cru e recorra ao exterior para
complementar a oferta de diesel.

  

Em abril, aproximadamente um quarto do diesel vendido no mercado brasileiro veio
de outros países, de acordo com a ANP, e a Rússia respondeu por quase metade do
volume importado. Na avaliação do especialista, a concentração das compras em
um fornecedor afetado pela guerra e por ataques às suas refinarias amplia a
exposição brasileira às instabilidades geopolíticas.

  

O risco aumenta diante da importância do Estreito de Ormuz para o mercado global.
Pela passagem circulam normalmente cerca de 20 milhões de barris de petróleo e
derivados por dia, volume correspondente a aproximadamente um quinto do consumo
mundial. Uma interrupção ou redução desse fluxo pode pressionar não apenas o
petróleo bruto, mas também combustíveis já refinados, como diesel e querosene.

  

A ampliação do uso do biodiesel aparece, nesse contexto, como uma etapa
estratégica para reduzir a vulnerabilidade brasileira. Eric ressalta,
entretanto, que o avanço exige cuidados diferentes dos adotados na gasolina.
Mudanças na mistura precisam considerar testes em motores, validações técnicas
e garantias de desempenho, o que impede respostas administrativas tão rápidas
quanto a elevação da participação do etanol.

  

“A tarefa agora não é criar outra solução emergencial, mas completar a estratégia
que o país já começou a construir. A flexibilidade que protege a gasolina
precisa avançar de forma tecnicamente segura sobre o diesel, onde a dependência
externa produz impactos que se espalham por toda a economia”, destaca.

  

Além de fortalecer a segurança energética nacional, o especialista identifica uma
oportunidade internacional para o Brasil. Em um cenário no qual países procuram
reduzir a dependência do petróleo e a exposição a rotas vulneráveis a
conflitos, a experiência brasileira na produção e utilização de combustíveis
renováveis em escala pode ampliar sua presença no mercado externo.

  

Segundo Eric, a safra brasileira passou a ter um valor que ultrapassa a produção de
alimentos e commodities. “Ela também representa capacidade de substituir
combustíveis fósseis, proteger a economia e oferecer ao mundo alternativas
renováveis que já funcionam em escala. Transformar essa vantagem ainda parcial
em estratégia nacional pode colocar o Brasil em posição privilegiada em um
mercado que começa a se abrir”, conclui.

  

Sobre
Eric Fernando Boeck Daza

Eric Fernando Boeck Daza é especialista em energia, transição energética e mudanças
climáticas, com mais de 15 anos de atuação no setor. Possui experiência em
projetos de descarbonização, planejamento energético e desenvolvimento
sustentável em mais de 20 países. Atualmente é Senior Advisor da LAC Clean Hydrogen
Action Alliance e consultor da Meridian Climate & Energy Advisory.