Estudo reforça papel da genética no transtorno de personalidade borderline e confirma percepção já observada na prática clínica

 

Neuropsicóloga Aline Graffiette explica como a descoberta pode contribuir para diagnósticos mais precisos e ampliar o entendimentosobre o transtorno

 

Um estudo publicado na revista científica Nature Genetics identificou as primeiras evidências robustas de fatores genéticos associados ao transtorno de personalidade borderline (TPB). Considerada a maior pesquisa genética já realizada sobre a condição, a descoberta amplia o entendimento sobre o transtorno, historicamente relacionado principalmente a fatores ambientais e experiências vividas ao longo da vida.

  

 

Para a neuropsicóloga Aline Graffiette, o resultado da pesquisa confirma uma percepção que há anos faz parte da prática clínica.

  

“A pesquisa vem trazer ciência para aquilo que a clínica já observa no dia a dia. Quando recebemos um paciente com suspeita de transtorno de personalidade borderline, uma das primeiras etapas da avaliação é entender como funciona a dinâmica familiar. Investigamos se há familiares com transtornos psiquiátricos ou padrões semelhantes de comportamento e funcionamento da personalidade. É muito comum encontrarmos esse histórico.”

 

Segundo a especialista, a descoberta representa um avanço importante porque pode tornar o diagnóstico ainda mais preciso no futuro.

  

“Uma vez que esses fatores genéticos sejam cada vez mais bem delimitados, poderemos ter ainda mais segurança no processo diagnóstico. Hoje já existem empresas que trabalham com testes genéticos voltados para marcadores relacionados ao comportamento. No futuro, esse conhecimento pode ser ampliado também para os transtornos de personalidade, contribuindo para diagnósticos mais assertivos.”

 

Diagnóstico exige avaliação cuidadosa

Aline explica que o transtorno de personalidade borderline continua sendo um dos diagnósticos mais desafiadores da saúde mental, justamente porque compartilha características com outros transtornos psiquiátricos.

  

“Hoje, a avaliação da personalidade passou a ocupar um papel central. Antes de fechar qualquer diagnóstico, analisamos o conjunto dos sintomas, dos comportamentos e da forma como aquela pessoa funciona nas diferentes áreas da vida. O borderline pode apresentar características semelhantes às observadas em transtornos de humor, ansiedade e outros transtornos de personalidade, por isso a avaliação precisa ser bastante criteriosa.”

 

Ela destaca ainda que muitos pacientes apresentam comorbidades ao longo da vida.

  

“Dependendo da fase em que o paciente está, ele pode apresentar sintomas importantes de ansiedade, episódios depressivos e alterações de humor. Tudo isso pode aparecer como comorbidade, o que torna ainda mais importante uma avaliação completa e individualizada.”

 

Um transtorno que afeta toda a família

Além do sofrimento vivido pelo paciente, Aline ressalta que o impacto costuma atingir toda a rede familiar.

  

“O sofrimento psíquico é muito intenso, mas a família também sofre junto. É um transtorno que afeta profundamente as relações, gera desgaste emocional e exige acompanhamento não apenas do paciente, mas também de quem convive com ele. Por isso, quanto mais cedo conseguimos identificar o transtorno e iniciar o tratamento adequado, maiores são as chances de melhorar a qualidade de vida de todos os envolvidos.”

 

Para a neuropsicóloga, pesquisas como essa representam um passo importante para o avanço da saúde mental.

  

“A ciência vem para trazer dados sobre aquilo que a prática clínica já observa há anos. Isso não significa que o transtorno seja determinado apenas pela genética, mas mostra que compreender esses fatores pode ampliar nosso conhecimento e contribuir para diagnósticos e tratamentos cada vez mais precisos.”