Majoração de tarifas estadunidenses e diversificação de investimentos

Professor de Finanças e Tributos na FIPECAFI, Helder Medeiros França

A recente majoração de tarifa comercial no patamar de 25% aplicada pelo governo estadunidense apresenta um elevado potencial de impacto sobre a economia brasileira.

  

O que está em jogo, no presente momento, é se o Brasil movimenta a Lei de Reciprocidade Econômica (Lei Federal nº 15.122/2025) em retaliação no complexo tabuleiro da geopolítica global ou, a seu turno, se preserva o custo político de não desgastar a imagem institucional do país em um ano eleitoral suscetível a possíveis interferências externas.

  

A lista dos produtos isentos do “novo tarifaço” é extensa, contemplando quase 2/3 dos produtos comercializados para o vizinho norte-americano e passando por itens como petróleo, café, carne bovina, peixes, produtos de origem animal, frutas, legumes, cereais, produtos químicos, minerais, medicamentos, fertilizantes, plásticos, madeira, metais, máquinas, equipamentos eletrônicos e aeronáuticos.

  

Por outro lado, ainda que em menor quantidade mas, também numerosa, é a relação das mercadorias afetadas pela medida protecionista, que abrange a taxação de etanol, máquinas agrícolas, vestuário, maquinário elétrico, calçados, ferramentas de jardinagem, equipamentos de mineração, papel, açúcar orgânico, bens de capital, manufaturados em geral, alguns produtos químicos e itens industriais processados.

  

Estudos iniciais da Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil), apontam que a tarifação impacta diretamente as exportações brasileiras aos Estados Unidos, na ordem de US$ 11 bilhões. Conforme levantamento realizado pelo GTA (Global Trade Alert), a tarifa efetiva média aplicada aos produtos brasileiros chegará a 18,2% após a implementação (com início em 22/07/2026), o posicionando em segundo lugar no ranking global dos países mais afetados, perdendo apenas para a China, seu principal parceiro comercial, cuja tarifa média é de 27%.

  

Somado a este montante, o Brasil ainda corre o risco de ter a carga tarifária elevada em 12,5% (totalizando, portanto, 37,5%), diante do encerramento recente de investigações encampadas pelo governo estadunidense com fundamento na Seção 301, da Lei de Comércio de 1974, que teriam levado à conclusão de que o país não estaria fiscalizando adequadamente mercadorias produzidas sob trabalho forçado (o que, por si, estaria gerando uma prática anticompetitiva prejudicial às empresas norte-americanas).

  

O plano sobre esses impactos

Em meio às polêmicas levantadas, fato é que, enquanto a situação política entre as nações não se define, cada setor econômico vem se movimentando nos bastidores para tentar incluir novos itens na lista de isenção tarifária, cada um a seu modo, alcançando alguns resultados pontuais satisfatórios (tais como café solúvel, mel e pescados).

  

De todo modo, o cenário nos revela uma necessidade cada vez mais crescente de que os planos de negócios das empresas reflitam sobre esses impactos. Seja remodelando a cadeia produtiva empresarial ou mesmo aderindo à linhas especiais de crédito (que o governo brasileiro já vem, inclusive, sinalizando via BNDES), tais decisões impactam diretamente as finanças empresariais, colocando sob perspectiva a exposição da atividade empresarial às variações econômicas.

  

Soluções 

Para refrear a crise, por exemplo, há a possibilidade de majoração da já elevada taxa básica de juros – a SELIC -, hoje no auge de seus 14,25%, para conter a crescente inflação no país, atualmente em 5,15%, acima do teto de 4,5% da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), conforme último Relatório Focus, do Banco Central do Brasil.

  

Nesse contexto, cada vez mais o conhecimento acurado em análise de investimentos, técnicas de avaliação de empresas, gestão de riscos e estratégias de hedge accounting tem se sobressaído no planejamento estratégico de pequenas, médias e grandes empresas, deixando de ser um mero capítulo do dia-dia-dia de analistas de FP&A para assumir, verdadeiramente, a função de mensagem-chave direcionada aos diversos stakeholders que permeiam a vida empresarial, fortalecendo os mecanismos assecuratórios de informações financeiras reportadas e mitigando possíveis riscos enfrentados na economia de “cenários incertos”, gerando valor à atividade e protegendo ativos.