Quando o crédito fica caro, o veículo pode ser mais do que transporte

 

Marcela Matos*
“Carro não é investimento.” A frase se consolidou como um consenso no mercado financeiro. E, sob a ótica patrimonial, ela faz sentido. Um automóvel, em regra, sofre depreciação ao longo do tempo, demanda gastos com manutenção, seguro, combustível, impostos e dificilmente se valoriza como outros ativos.
Mas limitar a análise apenas à desvalorização do bem é ignorar sua função econômica na vida de milhões de brasileiros.
Para muitas famílias, o veículo não representa apenas um patrimônio. É um instrumento de trabalho, mobilidade, segurança e geração de renda. É ele que permite chegar ao emprego, transportar mercadorias, prestar serviços, atender clientes, levar os filhos à escola ou simplesmente viver com maior autonomia em cidades onde o transporte público nem sempre atende às necessidades da população.
Em outras palavras, embora o carro perca valor de mercado com o passar dos anos, ele continua produzindo valor para seu proprietário.
Esse aspecto ganha ainda mais importância em um cenário de crédito caro e restritivo. Segundo dados do Banco Central, divulgados pela Agência Brasil, a taxa média de juros do crédito livre para pessoas físicas alcançou 61,5% ao ano em março de 2026. No cheque especial, a média chegou a 137,9% ao ano. Já o cartão de crédito rotativo permanece entre as modalidades mais onerosas do sistema financeiro brasileiro, tendo registrado juros médios próximos de 450% ao ano em 2025.
Diante desse ambiente, cresce o interesse por modalidades de crédito que ofereçam condições mais equilibradas, entre elas o crédito com garantia de veículo.
Ao utilizar o automóvel como garantia da operação, o risco para a instituição financeira tende a ser menor. Como consequência, o cliente pode ter acesso a taxas de juros mais competitivas, prazos maiores e parcelas mais compatíveis com sua capacidade de pagamento quando comparadas às linhas tradicionais de crédito pessoal sem garantia.
Importante destacar que essa modalidade não exige a venda do veículo. Em regra, o proprietário continua utilizando normalmente o automóvel durante todo o contrato. A alienação fiduciária funciona apenas como garantia da operação, preservando o uso do bem enquanto as obrigações financeiras são cumpridas.
Naturalmente, isso não significa que qualquer operação seja vantajosa.
O crédito só faz sentido quando atende a uma finalidade financeira racional. Substituir dívidas de juros elevados, reorganizar o orçamento ou concentrar compromissos financeiros podem ser objetivos legítimos. Por outro lado, assumir uma nova obrigação apenas porque existe crédito disponível pode agravar o endividamento.
Por isso, a decisão deve considerar não apenas o valor liberado, mas também o custo efetivo total da operação, o prazo contratado, o impacto das parcelas no orçamento familiar e a real necessidade do financiamento.
O crescimento desse segmento demonstra que consumidores e instituições financeiras passaram a enxergar novas possibilidades para um patrimônio que antes era visto apenas como um bem depreciável. Em 2025, o mercado de crédito com garantia de veículos movimentou aproximadamente R$ 12 bilhões no Brasil, consolidando-se como uma alternativa relevante dentro do sistema financeiro.
Nesse cenário, empresas especializadas vêm contribuindo para ampliar o acesso a esse tipo de operação com maior transparência e orientação financeira. A Soma Soluciona, por exemplo, foi reconhecida pelo C6 Bank como uma das maiores originadoras de crédito com garantia de veículo do país, resultado que reflete sua atuação nesse mercado.
No fim das contas, a discussão não é se o carro é ou não um investimento. Na maioria das vezes, ele realmente não é.
A questão é compreender que um ativo pode gerar utilidade econômica sem necessariamente apresentar valorização patrimonial. Um veículo pode representar produtividade, renda, mobilidade e, quando utilizado de forma consciente, também pode servir como instrumento para reduzir o custo do crédito e melhorar a saúde financeira de quem precisa reorganizar suas finanças.
Em tempos de juros elevados, planejamento continua sendo o melhor investimento. E, em determinadas circunstâncias, utilizar de forma estratégica um patrimônio que já faz parte da vida do consumidor pode ser uma decisão mais inteligente do que recorrer às modalidades mais caras do mercado.
*Marcela Matos é CEO e sócia executiva do Grupo Soma. Administradora e pós-graduada em Gestão, iniciou sua trajetória no mercado financeiro na Caixa Econômica Federal, onde desenvolveu experiência em análise de crédito, relacionamento com clientes e compreensão das suas necessidades financeiras. À frente do Grupo Soma, lidera uma operação que integra soluções em crédito por meio de frentes como correspondente bancário, fintech, meios de pagamento, convênios públicos e privados para operações consignadas, crédito com garantia e assessoria financeira. Atua na gestão estratégica da operação, liderança de equipes, performance comercial, análise de indicadores, eficiência operacional e acompanhamento das inúmeras mudanças regulatórias que impactam o acesso ao crédito no Brasil.