Arquiteta Gabi Sartori, da NEUROARQ® Academy, explica como luz e som inadequados engatilham crises em pessoas neurodivergentes e ensina como o design
Para além das rampas: no Dia do Orgulho Autista, neuroarquitetura alerta para a urgência da “acessibilidade invisível”
Arquiteta Gabi Sartori, da NEUROARQ® Academy, explica como luz e som inadequados engatilham crises em pessoas neurodivergentes e ensina como o design pode atuar como ferramenta biológica de inclusão.
Quando o tema é acessibilidade na arquitetura, a imagem imediata costuma remeter a rampas, elevadores e vãos adaptados. Contudo, no Dia Mundial do Orgulho Autista, celebrado em 18 de junho, especialistas alertam para uma revisão estrutural necessária: a acessibilidade invisível.
Para pessoas no espectro autista, com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) ou alta sensibilidade, as barreiras mais limitantes não estão no chão, mas na forma como o som, a luz e a organização dos ambientes são processados fisiologicamente.
Segundo a arquiteta, urbanista e cofundadora da NEUROARQ® Academy, Gabi Sartori, o cérebro típico possui um mecanismo de habituação que “desliga” estímulos constantes, transformando o ruído de um ar-condicionado ou reflexos de vidro em um pano de fundo imperceptível. O cenário, no entanto, é drástico para a neurodivergência.
“Essas pessoas frequentemente lidam com uma ineficiência no que chamamos de firewall sensorial. O filtro neurológico que deveria barrar estímulos repetitivos falha, gerando uma inundação de informações (sensory flooding)”, explica Sartori. “Quando o indivíduo não consegue transformar o caos visual ou acústico em pano de fundo, o próprio ambiente projetado precisa atuar como o filtro que falta.”
O preço biológico de habitar espaços hostis
Tentar trabalhar, estudar ou socializar em um local sem planejamento sensorial cobra um alto preço metabólico. O corpo humano trabalha ininterruptamente para manter a homeostase (equilíbrio interno). Em espaços com iluminação agressiva ou excesso de ruídos, o esforço exigido de uma pessoa neurodivergente gera uma carga alostática severa. O resultado prático é o esgotamento rápido da energia mental, fadiga cognitiva crônica e o engatilhamento de crises de sobrecarga, conhecidas como meltdowns.
Para que escritórios, escolas e lares abracem a neurodiversidade na prática, agregando valor real às políticas de ESG e garantindo a retenção de talentos atípicos, o profissional de arquitetura precisa dominar a especificação técnica voltada ao conforto sensorial.
Da teoria à prancheta: diretrizes para a inclusão real
Gabi Sartori recomenda três pilares de atuação projetual para transformar espaços em suportes seguros:
Acústica de precisão além do forro: O excesso de reverberação é um dos maiores gatilhos de estresse. A especificação deve prever a absorção e o bloqueio de ruídos de forma integrada.
Na prática: Utilização de painéis ripados e nuvens acústicas em feltro PET reciclado, forros de fibra mineral de alto desempenho NRC (Noise Reduction Coefficient) e carpetes modulares de alta densidade para abafar o som de passos em áreas de foco.
Luminotécnica e controle de variáveis: A luz branca fria e contínua é altamente desgastante. O usuário precisa ter autonomia sobre o próprio microambiente.
Na prática: Sistemas dimerizáveis com ajuste de temperatura de cor (ciclo circadiano). Preferência por fontes de luz indireta, rebatida no teto ou nas paredes, para evitar ofuscamento. Nas esquadrias, uso de brises ou persianas automatizadas para controle suave da luz natural.
Setorização preditiva e Quiet Rooms: A ansiedade antecipatória é mitigada quando o layout (wayfinding) “conversa” com o usuário, deixando claro o propósito de cada espaço.
Na prática: Criação de transições suaves usando a psicologia das cores para demarcar mudanças de zonas (do colaborativo para o foco). É essencial a implementação de quiet rooms, pequenos espaços de descompressão isolados, com paletas neutras, texturas táteis naturais (design biofílico) e mobiliário de “abraço acústico” para permitir pausas de autorregulação.
O desafio contemporâneo para o setor não é criar ambientes puramente assépticos e monótonos, nem superestimulantes. “O objetivo central é projetar com profundidade técnica e empatia. O design deixa de ser apenas estético e passa a ser uma intervenção direta de saúde, garantindo que o espaço seja um suporte equilibrado onde absolutamente todas as mentes possam performar com segurança”, conclui a arquiteta.
Sobre a NEUROARQ Academy
A NEUROARQ Academy é a principal instituição brasileira dedicada ao estudo e disseminação da neuroarquitetura. Focada na interseção entre neurociência e o ambiente construído, a academia lidera o movimento educacional para capacitar profissionais a projetarem espaços empáticos que promovam saúde, bem-estar e alta performance, sempre baseados em evidências científicas e foco no ser humano.
Sobre Gabi Sartori
Certificada em Neuroscience and Architecture, Design and Urbanism (Newschool, EUA). Arquiteta e urbanista, graduada também em comunicação social, especialista em arquitetura comercial pelo Senac/SP e se especializando em neurociência e desenvolvimento infantil pela PUCRS.
Por muitos anos desenvolveu projetos cenográficos para televisão, eventos e teatro, uma forma de seguir seu propósito de inspirar pessoas. . Co-fundadora da NeuroArq Academy (Academia Brasileira de Neurociência e Arquitetura) em parceria com a arquiteta Priscilla Bencke, que tem como objetivo capacitar profissionais, disseminar conhecimento, integrar áreas diversas em uma visão sistêmica de espaço e comportamento.












