*Por Berenice Shakti –
A conhecida frase “ser mãe é padecer no paraíso” revela mais do que um paradoxo; ela denuncia uma estrutura social profunda. Sob o véu da romantização, esconde-se uma experiência marcada por ambivalências: amor e exaustão, potência e invisibilidade, criação e apagamento.
Em sociedades patriarcais, a maternidade foi historicamente construída como o destino natural das mulheres, mas sem o devido reconhecimento social, econômico e simbólico. Quando o ato de cuidar é atravessado por sobrecarga, isolamento e culpa, ele deixa de ser um espaço de florescimento para se tornar um campo de desgaste contínuo.
Estudos longitudinais mostram uma piora consistente da saúde mental materna nas últimas décadas. Relatórios recentes apontam que a proporção de mães que se consideram em excelente estado psicológico caiu drasticamente, enquanto aumentaram os relatos de bem-estar regular ou insuficiente.
Nove em cada dez mães no Brasil sofrem de burnout parental, uma exaustão emocional extrema decorrente da sobrecarga de cuidados e da ausência de redes de apoio sólidas. Esses dados revelam uma verdade incômoda: a maternidade, como estruturada hoje, adoece mulheres – não por falha individual, mas pela exigência de dar conta de tudo sozinhas.
A responsabilização quase exclusiva das mães pela educação e pelo desenvolvimento das crianças revela uma falha estrutural. Embora recaia sobre elas o peso do cuidado, evidências mostram que o desenvolvimento infantil é influenciado também pela saúde mental paterna e pelo contexto familiar como um todo. Ainda assim, a cobrança cultural segue concentrada sobre as mulheres.
Há uma contradição central na modernidade: fala-se em autocuidado, mas não se transformam as condições que o tornam possível. Sem redistribuição de responsabilidades, a valorização individual se torna apenas mais uma cobrança.
Nos últimos anos, o debate sobre o cuidado como um trabalho fundamental e desigualmente distribuído tem ganhado força. Sem políticas públicas efetivas (como acesso à saúde mental, educação integral e licenças parentais) a maternidade seguirá sendo um espaço de sobrecarga.
É necessário deslocar a pergunta central de nossa sociedade: não se trata de questionar “como as mães podem aguentar?”, mas sim “por que permitimos que elas sigam sozinhas?”. Uma experiência que exige o autoapagamento não é dotada de respeito; é uma forma sutil de violência institucionalizada contra a humanidade da mulher.
Reconhecer a potência das mães não deve significar a naturalização de sua sobrecarga. Mulheres realizam feitos extraordinários, mas esse heroísmo não pode continuar sendo usado como justificativa para que continuem sem suporte.
Transformar a maternidade em um espaço de cidadania exige mudanças culturais, políticas e relacionais. Só assim será possível construir uma sociedade mais justa para mulheres e crianças, convocando também os homens ao exercício efetivo do cuidado.
*Berenice Shakti é fisioterapeuta pélvica, especialista em saúde pélvica e sexualidade, além de autora dos livros “O Diário de Adelaine” e “Cartas para Adelaine”






